Notícias Biográficas

Palavras de Vicente Salles

No dia 29 de setembro, encaminhei ao Magnífico Reitor da UFPA carta que me permito tornar pública,considerando o ato público de hoje:

“Honrado e sensibilizado recebi a comunicação de viva voz de Vossa Magnificência da outorga do título de DOUTOR HONORIS CAUSA a este trabalhador da cultura no Pará, persistente defensor da memória de nosso povo, que bate sempre na mesma tecla – “povo que não tem memória não tem o que defender”.

Chegando à idade privilegiada pela natureza sempre me ocorre olhar para a trajetória da vida. Um caboclo do interior do Estado, alfabetizado pelo próprio pai, um “intelectual municipal” (Carlos Drummond de Andrade) e que teve oportunidades não desperdiçadas de traçar o próprio destino.

A trajetória esteve muitas vezes ligada à Universidade Federal do Pará, desde a publicação, sob seus auspícios em convênio com a Fundação Getúlio Vargas, do livro “O Negro no Pará sob o regime da escravidão” e outros títulos como “Épocas do Teatro no Grão-Pará” e o mais recente “Maestro Gama Malcher”. Além disso tive a oportunidade de dirigir durante dois anos o Museu da UFPA, e ali executar alguns projetos em exposições de artistas regionais, inclusive da Caricatura (objeto dum ensaio inacabado), da Literatura de Cordel, do Mapeamento dos Quilombos, do levantamento das bandas de música da capital e do interior, com a gravação do repertório paraense, da construção de anexo, para abrigar a Coleção Vicente Salles, além de ministrar cursos sobre assuntos especialmente ligados à cultura popular e à musicologia. Sinto-me, portanto, há muito tempo, integrado no cotidiano da UFPA e receberei com orgulho a honraria que é o coroamento de esforços desta trajetória de vida.”

Por oportuno, devo estender ao colendo Conselho Universitário minha gratidão pela acolhida desta honraria.

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Um caboclo do interior do Estado, alfabetizado pelo próprio pai. Esse começo igual a tantos outros. Lembra também a trajetória de um querido amigo, Dalcídio Jurandir, alfabetizado no ambiente doméstico e leitor dos livros da pequena biblioteca do pai.

Falo de Dalcídio. A convivência com ele, no Rio de Janeiro, iniciou-se aí por volta de 1960, quando frequentava a redação de alguns jornais e revistas, em especial a revista Leitura, de Barbosa Melo, ninho intelectuais “de esquerda”.

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Também nasci no interior do Estado, no Caripi, município de Igarapé-Açu, perto de uma aldeia dos índios tembé. Caripi tinha estação de trem da Estrada de Ferro de Bragança, hoje extinta. O trem ali recebia a lenha para queimar na sua caldeira, e pouco adiante parava para se abastecer de água sugada do rio Livramento. Era a energia do vapor resultante dessa mistura que o movimentava.

Meu pai fazia as vezes de rábula, auxiliando o dr. Jorge Hurley. Defendeu interesses dos índios e me deu um nome tembé Juarimbu, nome de um igarapé da região. No fundo do igarapé, cascalhos. Sou, portanto, Vicente Juarimbu Salles.

Os tembé ocupavam terras do Gurupi junto com negros aquilombados. Os negros, mais sedentários, plantavam suas lavouras e garimpavam. Os tembé, sem terra fixa, ou donos de toda a terra disponível, vagavam em busca de caça, e faziam suas lavouras aqui e ali. Naquela época aconteceu um fato que surpreendeu o Dr. Jorge Hurley. Os índios eram comandados por uma mulher negra, a Damásia, que teria sido raptada nos sertões da Bahia e levada, ainda criança, para a distante aldeia do Pará. Essa história está contada pelo prof. Raimundo Ciriaco Alves da Cunha numa crônica que tem o título “O Feminismo no Pará”, publicada no jornal A Palavra, n. 592, de 17 de maio de 1917.

Em mim se fixou um dos interesses da minha vida de pesquisador: a mestiçagem, a geração de brasileiros pelo encontro de etnias aparentemente tão distintas.

Habituado a migrar, algum tempo depois meu pai deixou o Caripi e se estabeleceu no km 95 da antiga ferrovia e tinha o estranho nome de Anhanga. Anhanga, espírito maligno, segundo a crença indígena, foi rebatizada com nome de Santo: São Francisco, distrito de Castanhal, já município. Uma vila, como Caripi, que ocupava as duas margens da Estada de Ferro. Ali já não era rábula. Era guarda-livros. Como tinha boa redação e bonito cursivo, ali foi buscá-lo Maximino Porpino, o prefeito de Castanhal, para fazê-lo Secretário da Prefeitura. Era pelo ano de 1937. Ele já me havia alfabetizado.

Em Anhanga, comecei a ter consciência da vida, a guardar lembranças. A que mais se fixou na minha memória foi a do acendedor de lampiões. Em casa, havia porongas, ou lamparinas. Uma novidade meu pai adquiriu um dia: um “Petromax”, que espalhava muita luz e nos permitia horas de leituras em redor da mesa. Mesa da família, naquela altura já reunindo o casal e 5 filhos.

A mudança para Castanhal foi mudança de vida. Lá tinha Grupo Escolar, belo edifício localizado na Praça da Matriz. Havia coreto, banda de música. Luz elétrica! Verdade que do anoitecer até a meia-noite.

Meu pai gostava de livros e tinha pequena biblioteca. Comecei a folhear e a me interessar por eles. Havia de tudo. De Beccaria, dos “Delitos e das Penas”, a Cervantes – “Dom Quixote” -, a primeira emoção, uma coleção de Júlio Verne, Goethe, outra emoção, alguns maçônicos e outros esotéricos. E era grande consumidor de folhetos de poesia popular, o “cordel”.

Amigos do meu pai que ficaram na memória: o Paulo Haussler Delgado, marxista; o padre Salvador Tracaioli, fascista; o farmacêutico, que me nutria com almanaques contendo estórias interessantes, como a do biotônico que curou a “anemia” de Jeca-Tatu, texto de Monteiro Lobato, e terminava o Jeca-Tatu matando a onça com um soco na cara: “conheceu, papuda!”; o tabelião “seu Araújo”, pai da professora de canto formada pelo Conservatório Carlos Gomes, de Belém, que me fez cantar Heitor Villa-Lobos no orfeão do grupo escolar; um violinista espanhol, nosso vizinho, que sempre se exercitava no final das tardes e foi meu primeiro encanto com o repertório violinístico. Na memória, ficou-me Sarazate e alguma coisa de Bach, vagamente. Morreu e herdei o seu violino. Não havia mestre. Meu pai recorreu ao mestre da banda Francisco de Assis, clarinetista, que atuara em Belém e viveu plantando bandas de música pelo interior do Estado, inclusive a de Castanhal. O mestre associou-me ao clarinete um tanto receoso do violino. Deu-me para estudar uma artinha muito interessante, a “Aurora Musical”, do maestro Brandão, aqui do Pará. Do acervo de José Maria veio-me um método de Laureaux, que meu pai mandou encadernar e guardo comigo até hoje. Um fetiche. Não banquei Ingres, mas banquei a memória da primeira frustração, a difícil tarefa de vencer o pequeno instrumento, muito exigente. No grupo escolar cantava no coro da professora Filomena Alfaia de Araújo, a  filha do tabelião. Numa homenagem ao governador do Estado, que visitou a cidade, meu pai planejou mostrar às autoridades de Belém o coro cantando “Invocação em defesa da pátria”, de Heitor Villa-Lobos, ensaiado por Filomena e no dia dirigido pela Judith Monarcha Pepes, que era o braço direito de Margarida Schivazappa na superintendência do canto orfeônico no Estado do Pará. 1945. Ainda havia restos da guerra no ar. No trem passaram alguns soldados desconvocados. Eles cantavam modinhas guerreiras. “Invocação em defesa da pátria” soou bem na oportunidade. E a Filomena era a mesma cantora que na procissão do Senhor Morto, na Quaresma, cantava o papel da Verônica desenrolando um painel de pano pintado com a cara de Cristo, coroado de espinhos, ensanguentado. A música penetrou na minha vida.

No final de 46, meu pai, desempregado, trouxe a família para Belém. Vivi a transição física e de uma nova época. Perdera a voz. Mas trouxera o violino e tentei estudar com Mário Rocha, um boêmio de Marca Maior. Bom músico, formado no Conservatório do Porto, Portugal, funcionário público durante o dia, músico da noite. Tocava no Quarteto do Grande Hotel numa boate refrigerada, a primeira existente na terra do calor, e que a arraia-miúda deu nome bem apropriado: “buraco frio”.

E foi o tempo de contatos com intelectuais. Morava na mesma rua do poeta Bruno de Menezes, meu primeiro “guru” no ambiente do folclore; tentava a poesia, desde Castanhal, com o Paulo Delgado Filho, colega de turma no Grupo Escolar, e meu pai me fez contato com o poeta e jornalista Romeu Mariz, que levou para a Província do Pará meus primeiros textos. Adotei um pseudônimo caboclo: “Juarimbu Tabajara”. Tabajara em homenagem ao irmão de meu pai, Flávio Tabajara Salles, poeta, frequentador das tertúlias de Fortaleza.

Belém nessa época tinha certo agito intelectual. Havia o suplemento literário da Folha do Norte, frequentado por jovens da terra sob o comando do Haroldo Maranhão. Eu não consegui chegar até lá. Fiquei nas páginas de A Província do Pará, passando depois para O Estado do Pará, acolhido por Santana Marques, um caboclo que muito se identificou comigo, dando-me espaço no jornal dos Chermont. Ainda descambava para o lado dos poetas mais ligados ao cotidiano de Belém: Bruno de Menezes, Romeu Mariz, Jaques Flores, Georgenor Franco… a turma da Academia do Peixe Frito. Prosseguia nos estudos secundários, tentando concluir a segunda etapa do ensino médio. As dificuldades da vida, necessidade de trabalhar muito cedo, me fizeram abandonar o ginásio e seguir o curso noturno da Escola Prática do Comércio, onde entrei em contato com figuras memoráveis: o Eidorfe Moreira, maneta (perdeu um braço numa revolução da era getulista), mestre de geografia e história, talvez minha maior influência; Avertano Rocha, o médico; Renato Chalu Pacheco, mestre de francês: Mister Kirb, negro barbadiano, diplomado em Oxford, de inglês; Milton Trindade, de “mecanografia”, matéria que hoje está substituída pelo digitador, na época mais ampla: abrangia datilografia e estenografia. Estenógrafo, profissão estranha. Parece que ainda existe o cargo no congresso nacional. Pratiquei estenografia e datilografia. Tinha boa agilidade nos dedos.

Na Cidade Velha, rua Santarém, numa ponta morava Bruno de Menezes, dobrando uma esquina, para trás, morava o sapateiro Dagoberto lima, marxista, que me aproximou dos militantes partido, entre eles Levi Hall de Moura. Um dia baixou na Academia do Peixe Frito Eneida, que seria uma das queridas amigas no Rio de Janeiro.

Depois mudamos para uma ampla casa na rua Cametá, estilo português, com porão, varanda e pequeno quintal. Na varanda havia um muro que nos separava da casa vizinha, no mesmo estilo, residência de Diogo Costa, outro marxista histórico. Aí comecei a organizar minha biblioteca, misturada com a biblioteca de meu pai.

Um dia, foca de jornal, fui visitar o teatro da Paz que se preparava para realizar a temporada lírica organizada pelo italiano Nino Gaioni. Essa lírica deixou memória em Belém. E a minha ficou particularmente enriquecida. Pelo deslumbramento do espetáculo lírico e pelo incidente que me chamou à responsabilidade de escrever a memória da música no Pará. Na visita ao Teatro da Paz, acesso pela porta dos fundos, encontrei um lixo que me chamou a atenção: papéis velhos, programas, pequenos álbuns com recortes de jornais, livro da bilheteria com estatísticas de eventos passados, muita coisa. Apanhei e levei o que pude para casa. Era o “arquivo morto”, naquela altura considerado inútil e descartável, organizado por um velho funcionário, Alcebíades Nobre, bilheteiro. Com a ajuda de Justino da Paz, um negro muito habilidoso, faz tudo no teatro, pintor, cenógrafo, empalhador das cadeiras, bilheteiro, muleque de recados, recolhi o que pude carregar… Parte da História do Teatro no lixo. Esse lixo me transformou no Historiador do Teatro e da Música no Pará.

O interesse pela música, despertado na infância, continuou na juventude. O violino que trouxera de Castanhal acabou vendido num momento de necessidade, meu pai desempregado, vida apertada. Passou para boas mãos: uma jovem aluna do Conservatório Carlos Gomes, talentosa violinista. Tempos depois, com o dinheiro do meu trabalho, adquiri outro, no Empório Musical, que ainda trouxe para o Rio de Janeiro e me levou a Marcos Salles… outra história.

É. Cada violino tem sua história. Esse instrumento passei para meu irmão José Jacaúna, que tentou estudar e também não foi muito além. Abandonou no começo do caminho e o violino acabou em Santarém, doado a Wilson Fonseca, que certamente soube aproveitá-lo na sua escola de música.

Um terceiro violino entrou na minha vida. Violino de autor reputado: Vicente Lo Turco. Compreio-o já casado com Marena, não com o propósito de estudar, mas para a nossa (dela) coleção. Hoje está nas mãos de minha filha Mariana: teve um destino tão digno quanto os seus antecessores. E de Ingres, nada! Pois na vida só pintei 07.

Pela atenção, muito obrigado!

Algumas Palavras sobre Vicente Salles

Hoje é um dia importante para Vicente Salles e para mim. Esta é a oportunidade de me expressar sobre tudo o que tem acontecido em nossas vidas.

Estou ligada a Belém muito antes de conhecer Vicente. Minha família paterna, desde o século dezenove, já vivia no Estado do Pará. Através de meu pai ouvi as histórias desse mundo amazônico; ele me incutiu na alma e na pele todo esse mundo mágico que é Belém.

Meu bisavô, Marcos Pereira de Salles, engenheiro, teve grande importância no desenvolvimento de Belém. Recentemente o historiador Osvaldo Coimbra no jornal Diário do Pará, escreveu sobre meu bisavô e a importância de seu trabalho.

Meu avô Mecenas Facundo de Lima Salles, médico, também teve destaque em Belém, inclusive participando da equipe médica que tratou de Carlos Gomes.

Meu pai foi criado em Belém, na Rua Generalíssimo Deodoro próximo ao largo de Nazareth.

Como o descrito eu já conhecia Belém pelas falas de meu pai e de meus tios e tias, tanto que quando conheci Vicente no natal de 1954 já sentia Belém em meu coração sem nunca ter estado aqui.

Pouco antes de casar com Vicente vim com uma orquestra de ballet para uma das reinaugurações do Teatro da Paz, em 1965. Não fiquei no hotel, pois os pais de Vicente me abrigaram em sua casa. Aí eu conheci Belém.

Vejam uma curiosidade: Eu já estava noiva de Vicente e meu pai me disse: quando estiveres em Belém não aceita nenhuma bebida ou doce que te servirem sem saberes a pessoa que está te servindo, pois lá existem uma série de poções que podem te fazer afastar de Vicente. Muito cuidado! É a magia do “Mundo Encantado” da Amazônia.

Com Vicente conheci de verdade o Pará. Participei de suas pesquisas, tanto em campo como em arquivos. Embarquei na emocionante trilha de pesquisa que Vicente passou a desbravar.

Hoje eu vejo a importância da pesquisa de Vicente e muitas vezes não consigo acompanhar tudo o que ele escreve e tem em sua cabeça. Me pergunto: “Que homem é este”?

O Pará está inserido dentro de seu ser, de sua alma. O Mundo Encantado e as encantarias de que tanto fala o Paes Loureiro está dentro de seu coração e da sua mente. Ele não guarda para si suas descobertas, como muitos pesquisadores fazem. Ele sempre divulga para que outros também possam compartilhar do que ele sabe.

Domina varias áreas da cultura, da história, da música. Que não me cabe enumerar.

Conversar com ele é sempre uma aventura empolgante, pois re.,t sempre uma novidade.

Sinto que tenho uma grande responsabilidade em velar por sua saúde e seu bem estar. Às vezes me dá medo de não corresponder a esse destino. É uma alegria conviver com Vicente. Um homem que como presente de noivado me deu um livro de poesias suas: “O livro de Marena”. Que em 2008 eu editei junto com os meus filhos em segredo como um presente para ele. Na apresentação do livro ele diz: “Um homem lírico que não sonha apenas o sonho egoísta dos apaixonados. Um homem simples que encontra na poesia a sua forma de comunicação com os semelhantes. Um homem tão humano que te desejou como companheira e te prometeu – não o céu dos idealistas – mas a terra dura, agreste, o chão terrivelmente árduo dos que vêem no trabalho a razão de muitas (talvez todas) as coisas.

Quero agradecer o que vocês têm feito por ele e pelo seu trabalho. Muito obrigada de coração.

Marena Salles
16 de novembro de 2011.